terça-feira, 25 de setembro de 2012

Precisa-se de contadores de histórias

Por Fernando Torres

É inegável a influência da literatura na imprensa periódica. Dentre todas as facetas do jornalismo, a reportagem é produto direto dessa fusão, em termos de humanização, dramaticidade e descrição. Anula-se aqui o conto e a crônica, gêneros de publicação freqüente na mídia, mas já consagrados como literários e não jornalísticos.

Há um processo histórico de troca de elementos entre literatura e reportagem. Primeiro foi o realismo social. Este estilo literário - iniciado em meados do século XIX e protagonizado por escritores do calibre do francês Honoré de Balzac e do inglês Charles Dickens - cooperou para o surgimento da reportagem. A literatura de então destacava a temática social, a descrição detalhada de ambientes e personagens do cotidiano, contribuindo, assim, não apenas com os aspectos estéticos do texto jornalístico, mas também para a captação e apuração dos dados.

Mais adiante, a dinâmica se inverte: o new journalism, movimento literário norte-americano dos anos 1960 deflagrado pelos escritores-jornalistas Tom Wolfe, Truman Capote e Norman Mailer, tomaria fôlego mediante a reportagem. A partir daí, a ficção incorporou elementos informativos a sua narrativa. E mais: histórias reais, grandes reportagens, começaram a ser publicadas em livros.

Os arautos deste jornalismo impressionista dos anos 1960 e 1970 entraram realmente no dia-a-dia de suas personagens durante semanas e meses, chegando até a vivenciar suas atividades. Também relataram episódios até então considerados banais, como trejeitos e vestuário. O texto, por sua vez, possuía um estilo delicioso, sofisticado. O título básico do new journalism é A Sangue Frio, de Capote, inicialmente publicado nas páginas da revista The New Yorker.

O mix entre jornalismo e literatura se consagra completamente no livro-reportagem. Mas também há produtos com essa fusão no cotidiano dos periódicos. Os pesquisadores Helena Ferrari e Muniz Sodré comparam a reportagem ao conto, no sentido de que ambos propiciam a personalização de uma informação que se identifica como "interesse humano". Na prática, a reportagem-conto escolhe um personagem para ilustrar o tema a ser desenvolvido. Eles também vêem similaridades com a crônica. A reportagem-crônica alcança um resultado próximo da crítica social e da opinião velada, ou seja, flagrantes e incidentes.

Grandes reportagens


No início do século XX, o Brasil já havia tido reportagens literárias, ainda que sem essa nomenclatura. O clássico relato da Guerra de Canudos de Os Sertões, de Euclides da Cunha, originalmente ocupou as páginas de O Estado de S. Paulo, em 1897, no formato de reportagem-conto. A inauguração da reportagem-crônica viria pelas mãos do cronista carioca Paulo Barreto, conhecido como João do Rio. Com apurado senso observador, ele relatava as reformas sanitárias e urbanas do então prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos.

Mas o grande palco da reportagem literária ergueu-se nas páginas das revistas O Cruzeiro (1928-1975) e Realidade (1966-1976). Em seus anos de ouro, décadas de 40 e 60, respectivamente, ambos os periódicos valorizaram este gênero, tornando-se referência na fusão de jornalismo e literatura.

Em O Cruzeiro, o repórter paulista David Nasser e o fotógrafo francês Jean Manzon são responsáveis pelas reportagens literárias mais badaladas e representativas da revista. Eles seguiam uma pauta inusitada, que partia do convencional para o fantástico, reportagens que mexiam com o imaginário popular.

Uma das reportagens mais famosas da dupla é, sem dúvida, "Enfrentando os chavantes" (sic), publicada em 24 de junho de 1944 e repercutida na norte-americana Life, em 19 de março do ano seguinte. Trata-se de um flagrante de duas aldeias indígenas na serra do Roncador, em Mato Grosso, com direito a 20 páginas e 26 fotos. A abertura demonstra com clareza a enunciação literária, costumeiramente presente nos textos de Nasser.

Os olhos azuis de uma mulher chilena precipitaram de maneira dramática os acontecimentos. Sem esses olhos de mulher, nada se teria feito tão cedo e os chavantes não teriam levado o susto, nem visto o pássaro branco e trovejante descendo sobre suas cabeças [...], um avião prateado, como devem ser todos os aviões que levam os nossos amores (p. 48).


Trata-se de uma action-story, a reportagem de ação. Nela, o relato é movimentado, ampliando o acontecimento mais atraente e expondo o restante da história de forma mais intimista, como em um filme. Muitas vezes, o repórter evolui do status de narrador-observador para narrador-personagem. É o que Nasser faz freqüentemente, narrando os fatos em primeira pessoa, ora no plural, ora no singular e estrelando nas fotos.

"Enfrentando os chavantes" também pode ser considerada uma reportagem-crônica, já que o flagrante é seu principal atrativo. O texto possui predominância narrativa, descrição detalhada, dramaticidade e humanização das personagens. Nasser age como o repórter-herói que foi, viu e, agora, conta.

Representação verbal

Com a modernização da imprensa e a crise interna, O Cruzeiro perdeu essa aura literária. Mas eis que surgiu Realidade para ocupar a vaga. Em sua tese doutoral, Terezinha Fernandes, a partir do depoimento de Audálio Dantas, repórter e editor de Realidade, sistematiza as três principais contribuições do periódico: o jornalismo de texto e as novas formas de representação verbal; a participação do repórter como um personagem atuante no fato, o que levou a textos mais profundos; a transformação do material em fonte de estudos para a história. Dessas, as duas primeiras contribuíram fortemente para a excelência na fusão entre jornalismo e literatura.

Use-se como exemplo a matéria "O tira", assinada por Narciso Kalili e publicada na edição de junho de 1966. Nela, o repórter narra, pista a pista, a resolução de um caso de assalto a domicílio, penetrando no submundo do crime paulista, entre bicheiros, drogados ladrões e prostitutas e revelando ângulos insuspeitos.

O texto é em terceira pessoa, mas sob a ótica do investigador Moura; ele é o protagonista. O repórter aqui é onisciente, penetra no pensamento e na alma das personagens, por meio do confronto e da observação cena-a-cena, mas não interfere na história. Nota-se, em substituição, no decorrer de todo o texto, a relativa desorganização da narrativa, caótica como a profissão da personagem.

As aspas, utilizadas hoje para dar voz às personagens, simplesmente não existem. Kalili utiliza o recurso do travessão a cada fala, como em um romance. As gírias, maneirismos e codinomes são mantidos, a fim de transmitir maior contato com o universo retratado.

- Quero o Piranha. Ele te procurou hoje?
- Já, mas faz tempo. Ele deve estar ligado por aí. [...]
- A mulher dele não é uma branca, da São João, do 83?
- Aquela é uma trouxa. O negócio dele é mesmo com a do Zoinho, que se vira na Gusmões.
- Onde é que ele fica?
- No bar do Pé de Chumbo (p. 113 - grifos acrescentados).


Vê-se aqui a influência direta do new journalism, então efervescente nos Estados Unidos. O repórter é fiel ao que vê, mas para transmitir os fatos utiliza-se descaradamente dos recursos da ficção. Novamente, o gênero action-story é utilizado para contar essa história, levado até o extremo. Predominam também as características da reportagem-conto.

Triste distanciamento

Hoje, a reportagem literária vive um momento de pouca expressividade na imprensa periódica. No atual estilo de texto, o relato perde o movimento, tornando-se mais rígido. A recente incorporação de boxes e infográficos à reportagem resultou em uma narrativa mais fragmentada impessoal, distante do leitor.

A grande reportagem, por sua vez, está migrando para outro tipo de mídia: o livro. Trata-se do livro-reportagem, um mercado muito lucrativo para as editoras nos últimos anos. O estilo já é bem conhecido: uma reciclagem do new journalism, uma reportagem de Realidade, mais profunda. Eis uma perda significativa, já que, no Brasil, o acesso aos livros é muito mais restrito do que às revistas.

O escritor norte-americano Ernest Hemingway, que em sua carreira intercalou produção jornalística e literária, defende que a reportagem deveria funcionar como suporte para a literatura. Como se vê, isso já vem ocorrendo. Espera-se, porém que, assim como no passado, o jornalismo diário e semanal possa voltar a beber com mais freqüência na fonte da literatura. A mídia periódica precisa, urgentemente, mais que técnicos do lead e da pirâmide invertida, mas de contadores de história.  

Fonte: www.canaldaimprensa.com.br

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