Mostrar mensagens com a etiqueta Poema/Poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poema/Poesia. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 11 de março de 2015

Preciso de um Deus com rosto

Preciso de um Deus com rosto.
Cansei-me desta solidão onde
as lágrimas são breves e trespassáveis.
Preciso das inclinações.

[dos ângulos perfeitos que não tenho]

que me sustenham a dor, que ma retenham
no sopé de todas as perguntas. Qual magma
de um desespero a precisar de soluções.

Preciso de gestos, não de orações.
Preciso que me decomponham o sofrimento
com os dedos.

[Com os dedos que não tenho].

Preciso de um Deus com mãos.
Cansei-me destas lágrimas onde estar só
é um caos de imprecisões. 

In "Relevos", de Virgínia do Carmo 


terça-feira, 18 de junho de 2013

in "Vozes do Pensamento”

"Não temo as vozes alheias
Das gentes dissimuladas,
Que lançam indignos rumores.

Não me intimido
Com os olhares corrosivos,
Pela inveja despertados.

Não me atormento
Com os pensamentos perversos,
Das mentes des-ocupadas.

Não me movo
Pelas ideologias alucinadas,
Dos que tiranizam o poder.

Não me desloco
Pelos caminhos empoeirados,
Dos pensamentos dogmáticos.

Não me transfiro
Para os domínios da vã glória,
Dos que apregoam a salvação impossível."

Isabel Rosete
  in "Vozes do Pensamento”

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Raiz do Poeta

Quando virem meu poema
quando olharem para mim
querem,
(mas eu não me calo)
quererão queimar
meu poema,
(o poeta não se cala).
Enquanto o sol brilhar
enquanto a lua existir
enquanto o ser durar.
Não me calo.
Quererão queimar
quererão matar
meu poema,
mas ficarão as cinzas,
as cinzas do poeta
que mais tarde
darão flor,
a flor de ser poeta.
Queimarão com ácidos
ficará a mancha;
cortarão as mãos
ficará o pensamento;
apagarão as luzes
ficará o escuro.
Querem mas
o poeta não se cala.
Só se conseguirem
algum dia
acabar com a raiz
a raiz de ser poeta.


Likó, Sou Eu (páginas 36-37)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Nasço em ti



nasceste-me,
desaguando olhares sobre as estrias da noite,
... onde se demoram alucinações e sonhos desiguais,

onde demoras o ventre sobre as costas e nadas,
soluçando gritos e deixando transparecer a noite
onde me nasceste.

nasceste-me,
ventre renascido de águas azuis e flores silvestres,
framboesas do meu rosto e odor frutado de corpos
floridos.

nasceste-me,
onde a noite se fez água entretecida nas margens,
olhos das areias onde passeei ondas gigantes, levantadas
da raíz e do tronco da vida,

nascendo-me
nas horas claras das luzes impressas nos dedos,
imprecisas e paradoxais como o sonho, onde movo
as mãos e me encontro

em ti.
 
Susana Duarte

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

NEM TANTA COISA DEPENDE








 Miguel-Manso
[in Ensinar o Caminho ao Diabo, edição do autor, 2012] 







 preferes o canto, o lugar oculto
a folhagem, a sombra, o quarto, este
saco de trigo: ouro de um texto
sobre a velha escrivaninha do real


lá fora o clarão do arvoredo
atalhos para a tingidura da paisagem
cá dentro menos caminho, outro

panorama: a presença tão-só
desabitada de uma pessoa, mistério sem
atributo ou função

sempre a desfeita de um coração
o cultivo intensivo das figuras
e sobram tristeza e dias ao corpo que escreve
no calabouço de uma manhã muito larga

reluzente de gotas de mel
enquanto os gatos lambem o sábado
e sentado, sapo de ouro, permites-te pôr no mundo
(mas porquê) outro poema


quinta-feira, 5 de abril de 2012

Impressões Visuais

Eu vejo aquilo que sou,
Tudo o que vejo é meu.
Com os olhos beijo o mundo,
Abraço a terra e o céu.

No silêncio sei os sons

E com eles eu naufrago
No mar de todos os tons
Das cores que comigo trago.

Toda a beleza me dói

Com medo de a não ver.
Só quando a sinto em mim
Nela me sinto perder.

 



Ofir, 8 de Abril de 2011   

José Coimbra Barbosa