Um lugar a menos
Autor: Miguel-Manso
“Abres o alçapão, pões o braço lá dentro. O que retiras de lá não é o que retiras de lá, mas ocupa um lugar. É um lugar o que retiras do alçapão. Um lugar a menos.”
Colocado voluntariamente à margem do mundo editorial, Miguel-Manso é um caso
singular na literatura portuguesa contemporânea. Desde 2008 vem publicando, a
expensas próprias, os seus livros de poemas: volumes simples, brancos, com
grafismo sóbrio e paratexto fotográfico, uma série em curso (são já cinco) que
o poeta apelidou «Os Carimbos de Gent», porque nas capas são reproduzidas
imagens de carimbos comprados numa loja de velharias daquela cidade belga.
Embora razoavelmente diferentes entre si, os livros partilham um mesmo tom, uma
escrita atentíssima à pulsação caótica do mundo, pródiga em «entusiasmos
verbais», em «proezas de linguagem», e com uma certa queda para as palavras
raras (um verdadeiro festim para quem gosta de vocabulário arcaico, daquele há
muito enterrado no fundo dos dicionários). Com edição simultânea, Um Lugar
a Menos e Ensinar o Caminho ao Diabo são as obras mais recentes
de Manso, confirmando as qualidades que já lhe reconhecíamos nos três primeiros
livros.
Um Lugar a Menos é composto por algumas dezenas de textos curtos, em prosa, parágrafos bem lapidados que estão mais perto da reflexão aforística do que do lirismo. O título é um trocadilho com o locus amoenus, tópico da literatura clássica, mas os lugares que aqui se revelam e questionam são os da própria escrita, na sua difícil tarefa de olhar pela janela «os vestígios do mundo» e esconjurar a paisagem. Afirma Miguel-Manso: «A qualquer poemário devemos atribuir uma estrutura que permita todas as perplexidades.» É o que acontece neste livro exigente, umas vezes opaco, outras irónico (a variação de Cesariny para autarcas: «Ama como a rotunda começa»), outras tangencialmente próximo da realidade quotidiana (a história da mulher que esteve nove anos morta em casa). «Que o texto seja não o texto consumado mas o caminho para a consumação do texto», sugere o início de um dos fragmentos. E os outros fragmentos obedecem-lhe.
Menos hermético, Ensinar o Caminho ao Diabo é o livro de um poeta nocturno e invernal, um flâneur que «caminha de um lugar que não sabe / a um lugar que não pode», saltando de cidade em cidade (Lisboa, São Paulo, Londres, Évora, Veneza), rabiscando versos e suas cicatrizes («o caderno é a máquina fotográfica»), em busca do «espanto oculto» do poema, esse amontoado de palavras em deslocação que «é a coisa mais triste que há». Coisa triste mas necessária, capaz de dizer tudo com quase nada. Como prova este dístico escrito no Mindelo, Cabo Verde: «estão a construir um bar / e começaram pela música».
Um Lugar a Menos é composto por algumas dezenas de textos curtos, em prosa, parágrafos bem lapidados que estão mais perto da reflexão aforística do que do lirismo. O título é um trocadilho com o locus amoenus, tópico da literatura clássica, mas os lugares que aqui se revelam e questionam são os da própria escrita, na sua difícil tarefa de olhar pela janela «os vestígios do mundo» e esconjurar a paisagem. Afirma Miguel-Manso: «A qualquer poemário devemos atribuir uma estrutura que permita todas as perplexidades.» É o que acontece neste livro exigente, umas vezes opaco, outras irónico (a variação de Cesariny para autarcas: «Ama como a rotunda começa»), outras tangencialmente próximo da realidade quotidiana (a história da mulher que esteve nove anos morta em casa). «Que o texto seja não o texto consumado mas o caminho para a consumação do texto», sugere o início de um dos fragmentos. E os outros fragmentos obedecem-lhe.
Menos hermético, Ensinar o Caminho ao Diabo é o livro de um poeta nocturno e invernal, um flâneur que «caminha de um lugar que não sabe / a um lugar que não pode», saltando de cidade em cidade (Lisboa, São Paulo, Londres, Évora, Veneza), rabiscando versos e suas cicatrizes («o caderno é a máquina fotográfica»), em busca do «espanto oculto» do poema, esse amontoado de palavras em deslocação que «é a coisa mais triste que há». Coisa triste mas necessária, capaz de dizer tudo com quase nada. Como prova este dístico escrito no Mindelo, Cabo Verde: «estão a construir um bar / e começaram pela música».
[Texto publicado no n.º 113 da revista Ler]

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